Adriana Antunes, jornalista, escritora e patrona da 42ª Feira do Livro de Caxias do Sul
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21.10.2026 - 14h03min
Eu escrevo e escrever é um desejo profundo, quase utópico, de reinvertar-se a si, criando outros mundos possíveis, por meio das palavras, linguagem e personagens. Estes outros que somos nós, sem que os outros desconfiem. Escrever é inventar, mas é também contar de outro modo o real que nos atravessa. Mas, para escrever é preciso antes ler. Ninguém pode ser um bom escritor sem antes ser um bom leitor. É preciso ler muito. Ler a vida, o mundo, livros. É preciso criar uma intimidade com a palavra.
Depois, como nos lembra Primo Levi, para escrever, é preciso ter algo a dizer. Porque escrever é captar com palavras a tessitura poética do mundo ao redor. Por isso, nem sempre escrevemos sobre algo, mas a partir de. Escrita é técnica, mas é também imaginação. Escrita é afeto, mas também construção minuciosa e delicada de repertório e experiências de vida.
Boas histórias nascem de boas estruturas de enredo, trama e articulações da própria língua. Também não basta desejar escrever. É preciso investir em leitura, livros, estudos. Ninguém nasce sabendo escrever uma boa história, e se posso ser sincera, provavelmente, passaremos uma vida toda correndo atrás disso. Porque escrita é experiência transformada em mundos outros. Quando escrevemos mostramos quem somos, de onde viemos e que lugar nos encontramos. O modo como usamos a palavra demarca nossa condição neste mundo.
Daí que a Feira do Livro de Caxias do Sul encerrou a quase uma semana e eis-me aqui, como patrona, escritora mas também como leitora e pessoa apaixonada por livros com a memória ainda muito fresca daqueles dias a lhes escrever sobre escrita, leitura e livros.
Uma memória cheia de sorrisos, páginas, palavras, abraços, sons e histórias. Somos esta mistura de sentimentos, que hoje mescla alegria e saudade. Quase como se nossa cidade pudesse ser outra, pois na ficção é sempre possível imaginar-se diferente. Foram dias de encontros entre conhecidos e desconhecidos, mas todos amantes de livros, literatura, arte e cultura. Uma praça democrática que aceitou todos de todas as formas. Um lugar em que os iguais e os diferentes se encontraram.
Há anos frequento a feira do livro. Há anos transito por entre as palavras. No começo eu era criança e ia com meu pai, as bancas eram poucas e não havia cobertura como a que tem hoje. Depois, como adolescente, nas atividades organizadas pela escola. Mais tarde como jornalista e só depois como escritora. E agora, como patrona. Costumo dizer que as pedras da praça Dante Alighieri me viram crescer. Viram a criança que fui se transformar na pessoa que sou.
Apesar de eu vir de uma família muito simples, em nossa casa jamais faltaram livros. Meu pai era um ótimo leitor. E, certamente meu amor aos livros nasceu de vê-lo sentado em sua poltrona, atrás de um par de óculos e de um bigode de presença, compenetradíssimo em sua leitura. Cresci querendo ser como ele. Ler é um ato de resistência, é uma pausa na pressa, é uma recusa à superficialidade das redes sociais.
Por isso, não ler é um perigo e o último Retratos de leitura do Brasil, aponta que 53% da população não lê, o que representa cerca de 106 milhões de pessoas que não leram nenhum livro, nem partes dele, nos últimos meses. Pela primeira vez os não leitores são maioria. Quando deixamos de ler deixamos de pensar por nós mesmos. Quem não pensa, costuma repetir o que os outros dizem. Repetir é correr o risco de obedecer e quem obedece, desaparece.
Ler é um gesto que nos devolve a nós mesmos. É uma trégua no ruído do mundo que nos convida a refletir sobre nós, nossas escolhas e posições diante da vida. Além disso, ler é dar o exemplo, é demonstrar na prática que a literatura nos modifica, amplia nosso repertório, faz de nós mais humanos.
A Feira do Livro terminou, mas guardo a esperança de que as pessoas possam voltar a se tornarem leitores, pois são os que leem que modificam o contexto no qual estão inseridos, quem não lê, não sonha e quem não sonha, está morto.
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