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Entrevista de Sábado

Lucio Yanel defende educação para preservar a identidade cultural

Aos 80 anos, músico argentino radicado em Caxias do Sul mantém rotina de estudos e apresentações

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Jornalista - Redação

redacao@serraempauta.com.br

Ana Seerig/Divulgação
Lucio Yanel está sentado à mesa durante entrevista, com cabelos grisalhos e bigode branco. Ele veste camisa bege e gesticula com as mãos. Sobre a mesa, há uma cuia de chimarrão e uma garrafa térmica.

Entrevista realizada pela jornalista Ana Seerig.

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Lucio Yanel estava assistindo a um vídeo sobre música chilena quando nos recebeu em seu apartamento para uma conversa. Aos 80 anos, o violonista argentino afirma que jamais deixa de estudar e destaca a importância do conhecimento para fortalecer a cultura de um povo.

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Nascido em Corrientes e radicado no Rio Grande do Sul desde o início da década de 1980, Yanel mora em Caxias do Sul desde 2008 e afirma que não pretende deixar a cidade. Além de participar de apresentações na região, ele ainda viaja para cumprir agenda, especialmente em sua terra natal, onde participa de festivais de música.

Como foi o seu primeiro contato com o violão?

Eu comecei aos nove anos. Eu tinha um amigo que fazia aula de violão e um dia ele apareceu no jogo de futebol com um violão maior que ele, se eu tinha nove, ele tinha sete. Ele estava indo estudar, mas sentou na beira do campo e perguntou se estava faltando um jogador. Não estava, então ele foi jogar bola e eu fiquei ali com o violão, deslumbrado. Em casa não havia nenhum músico, mas meu entusiasmo foi tanto que meus pais me compraram um violão. Foi como se eu acordasse para algo que eu sempre reconheci que havia em mim, mas que não me lembrava. Meus primeiros ensinamentos foram de um vizinho que tocava violão, depois comprei um violão melhor e fui desenvolvendo com alguns amigos que se reuniam para tocar música, até hoje sigo aprendendo. O violão é um instrumento exigente, sobretudo para quem gosta mesmo, como é o meu caso. É difícil tocar bem.

Quando o senhor se reconheceu artista?

Eu não lembro de ter me afirmado isso, aconteceu de maneira natural, a partir dessa vivência. Aos nove anos eu peguei o violão pela primeira vez na minha mão, seis meses depois eu estava desenvolvendo práticas de colocação de mãos, quando deu um ano eu já estava tocando muito. Aos 14 anos eu já era profissional, já comecei a trabalhar acompanhando todo o tipo de cantores, de todo o tipo de música, o que foi muito valioso para mim, porque assim se conhece as cantorias populares, a musicalidade que tem o povo, algo que não se aprende na universidade. Aos 17 anos eu tive a possibilidade de estudar música academicamente e eu tentei, mas fracassei redondamente, não era a minha praia. A base do ensinamento acadêmico é sempre a mesma e a musicalidade do ser humano evolui de tal maneira que a universidade não acompanha. O músico popular, como eu sou, ele não fica quieto, ele é o que inventa as coisas. Eu toco fundamentalmente a musicalidade da minha terra, a musicalidade do pampa, a musicalidade daqueles espaços onde o homem é totalmente livre e anda em busca do seu destino. Eu crio minhas músicas assim.

Em seus mais de 60 anos de carreira, o senhor já viu muitas vezes a cultura ser afetada por questões políticas. Por que isso acontece?

A cultura é a primeira a ser afetada pela política, porque é o fio da comunicação entre os seres. Quando entra uma ditadura, um “fica quieto aí”, a primeira coisa que te cortam é o poder de te comunicar, porque isso significa multiplicação. A música é um acordar continuamente, no sentimento, nas palavras, nas reflexões, nas lembranças, no sonhar. Quem vai ser o primeiro a ser calado? O artista. E a cultura não é só a música, são os usos e costumes, o folclore. A mulher é uma das que mais sofre com o movimento cultural porque sempre foi sonegada em matéria de seriedade, em matéria de respeito - a não ser que você seja uma monumental Mercedes Sosa, uma monumental Joan Baez, que foram mandadas a esse plano para nos mostrar que é possível. Talvez eu não seja capaz de fazer o que elas fizeram, mas é possível.

Essa perda da identidade local parece ter se expandido com a tecnologia. O senhor foi o responsável por trazer identidade ao violão da música do Rio Grande do Sul, também viu o auge dos festivais da música nativa e presenciou eles se extinguirem aos poucos. Como  o senhor percebe tudo isso?

Essa sempre foi a minha luta. O movimento que surge nos anos 70 é um movimento que surge na fronteira e não é casualidade, porque o movimento na Argentina sempre foi efervescente. Às vezes abaixava um pouco o volume porque passamos por ditadura militar, mas dávamos um passo atrás para poder dar dois para a frente, um processo. O pessoal de Uruguaiana é contagiado pelo movimento na Argentina e começam os encontros que reuniam familiares, amigos, daí nasce a Califórnia da Canção. Isso é fantástico. Só que na Argentina o pessoal estudava, não academicamente, mas através de histórias, do boca a boca, era outro critério. Então emerge para o grande público uma personalidade que já era um representante da cantoria campesina, do homem comum, que é Atahualpa Yupanqui. No Rio Grande do Sul nós tivemos Jayme Caetano Braun, ele não está aí, mas está vivo na memória, porque era um virtuoso. Aparício Silva Rillo era um poeta que não se dedicava a isso, ele não era um trabalhador da poesia, ele era um advogado, mas ele tinha essa capacidade. Tem outros nomes que me fogem agora, mas eles eram virtuosos e não o movimento que se criou. Se o movimento fosse virtuoso, ele ainda existiria como existe na Argentina. O atual presidente argentino está acabando com o país e só ainda não acabou com ele porque culturalmente a Argentina é forte, é a cultura que está segurando as pontas. O que seria importante no Rio Grande do Sul seria não esquecer o lado do conhecimento.

Como o senhor vê o Brasil?

O Brasil tem tudo: vastidão em terra, em culturas que foram se integrando uma com a outra. Então, sem dúvida nenhuma, apesar de todas as mazelas, é o melhor país do mundo. Eu não sou brasileiro, não sou nascido aqui, mas talvez eu seja um brasileiro que vem de várias encarnações sendo brasileiro, porque senão já não estaria aqui, já teria voltado para a região onde nasci. Em qualquer canto do Brasil eu me sinto em casa, mas tem regiões, inclusive dentro do Rio Grande do Sul, que faz uma discriminação muito grande com quem não é da região. Comigo não aconteceu, sempre tive trânsito livre. Meu violão, minha cultura, minha arte, meu desejo de ser amigo me abriram portas.

Como o senhor vê o mundo de hoje?

As mudanças acontecem tão rapidamente e eu até me adapto, mas isso não quer dizer que eu as aceite. Para mim é mais duro passar essa transição, porque eu estou na reta final da vida. Não estou sendo pessimista, é natural, mas me dói porque vai ser difícil para os jovens de boa cabeça. Para ocupar o teu espaço, tu vai ter que ser bem centrado, pé firme e ter um lastro, que seria a tua cultura, prevalecendo a tua educação. Quando tu estiver bem, tu vai enfrentar um mundo que está totalmente desarticulado.

O que a gente poderia fazer hoje para melhorar esse futuro?

(Silêncio) Tem muita gente pensante, muito boa em articular coisas para o planeta, porque o planeta está assim, o planeta está confuso. Temos monstros em forma humana manejando populações mundiais, com o poder de apertar um botão e aniquilar o planeta. Como podemos parar isso? Acho que uma das coisas fundamentais é criar grupos de seres humanos que pensem igual, que tenham afinidades para se salvar e pensar no outro. “Solito” ninguém faz nada, é uma utopia. Destruir é bem mais fácil do que construir. De novo, nós temos que nos construir e isso se faz devagar, através de um processo. A destruição não tem processo, pode ser rápida, tem a bomba atômica, por exemplo, é só querer. A solução não é individual, tem que haver uma conscientização e a conscientização passa pela educação, que é o que menos se tem visto nos últimos 20 anos. Além disso temos que dar o valor que é sonegado à mulher. Ela é que é poderosa, o homem sempre vai ser um humilde coadjuvante, porque ele serve para dar o grito forte e gesticular, ao passo que a mulher tem a melhor arma, que é a solução da mazela em qualquer país, em uma comunidade, em uma casa: o sentimento. A mulher é mãe, ela tem dentro de si o amor.

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