Sociólogo defende projeto nacional mais claro, fortalecimento da cultura e ampliação do debate público
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21.06.2026 - 19h46min
O sociólogo e escritor Jessé Souza afirmou que a esquerda brasileira precisa apresentar um projeto mais claro para o país e disputar de forma mais efetiva as ideias que influenciam a sociedade.
Em entrevista concedida durante passagem por Caxias do Sul, onde participou de uma palestra na sexta-feira (19), promovida pelo Sindiserv e pelo Sinpro/Caxias, o ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) avaliou o cenário político brasileiro, criticou o modelo econômico vigente e apontou a educação, a cultura e a comunicação como áreas estratégicas para enfrentar as desigualdades sociais.
Reconhecido por obras como A Elite do Atraso, A Ralé Brasileira e O Pobre de Direita, Jessé também analisou os desafios da esquerda para as eleições de 2026, o papel da formação cultural da população e a necessidade de ampliar o debate público por meio da pluralidade de opiniões. Para ele, a disputa política passa, antes de tudo, pela disputa de ideias.
Confira trechos da coletiva de imprensa.
O que os candidatos à Presidência em 2026 precisam observar nas demandas da população?
A esquerda precisa apresentar uma alternativa clara ao modelo econômico atual. É necessário explicar à população quem se beneficia das desigualdades e dos juros elevados, que impactam diretamente a vida das pessoas. Também deve enfrentar temas como dívida pública, concentração de renda e perda de protagonismo do Executivo. Sem um projeto concreto e uma comunicação direta, parte do eleitorado continuará aderindo a discursos que, na minha avaliação, não enfrentam os problemas estruturais do país.
Quanto tempo a esquerda ainda precisa para aprender a se comunicar melhor com a população?
Tenho pouca esperança de que isso aconteça no curto prazo. O nível intelectual da classe política caiu muito nas últimas décadas. A esquerda deveria priorizar a disputa das ideias dominantes na sociedade, mas poucos compreendem essa necessidade. Hoje, a principal referência do campo progressista continua sendo Lula, que possui uma relação direta com o povo. O problema é que essa relação está muito vinculada à figura dele, e não a um projeto de país claramente apresentado.
O nível da população mudou? Ela está preparada para discutir projetos de Estado?
Acredito que toda pessoa é capaz de compreender ideias complexas quando elas são apresentadas de forma adequada. Muitas pessoas enfrentam dificuldades relacionadas à educação, à pobreza e à falta de oportunidades, mas isso não significa falta de inteligência. O problema é que, muitas vezes, não existe um discurso consistente para dialogar com elas. Enquanto isso, setores da extrema direita investem há décadas na formação de opinião e na construção de narrativas capazes de influenciar comportamentos.
Diante desse cenário, quais são as perspectivas para o futuro?
Vejo como fundamental a construção de meios de comunicação independentes e acessíveis, capazes de democratizar o conhecimento. A esquerda precisa investir mais na formação cultural e na criação de um imaginário social alternativo. Sem isso, as pessoas continuam expostas a interpretações que reforçam desigualdades. A disputa política não ocorre apenas nas eleições, mas também no campo das ideias e dos valores compartilhados pela sociedade.
Entre saúde, educação e segurança, qual seria a prioridade?
Eu apostaria na cultura em seu sentido mais amplo, porque ela influencia a forma como as pessoas pensam e compreendem a sociedade. Isso passa por educação de qualidade, acesso ao conhecimento, arte, esporte e desenvolvimento humano. Com investimentos adequados, seria possível transformar a escola pública e fortalecer áreas como a saúde. O principal desafio, na minha visão, é garantir que os recursos públicos sejam direcionados para reduzir desigualdades e ampliar oportunidades.
Qual é o papel da pluralidade de opiniões nesse processo?
Uma sociedade só se torna verdadeiramente reflexiva quando as pessoas têm acesso a opiniões diferentes e podem formar seu próprio julgamento. A pluralidade é essencial para a democracia. Quando existe debate e diversidade de pontos de vista, os cidadãos conseguem desenvolver senso crítico e participar de forma mais consciente da vida pública. É isso que fortalece as instituições e dificulta o avanço de projetos autoritários.
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