Ator caxiense iniciou carreira no Miseri Coloni e construiu trajetória em diferentes linguagens cênicas
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10.10.2026 - 08h52min
Entrevista realizada pela jornalista Ana Seerig.
O ator caxiense Fábio Cuelli retornou do Pará na semana passada, onde esteve com o grupo Máscara EnCena, e retomou a agenda de apresentações em escolas e comunidades de Caxias do Sul. Entre um espetáculo e outro, recebeu o Serra em Pauta na sede do grupo Miseri Coloni para falar sobre sua trajetória no teatro, o processo criativo de “Geppetto” e a indicação ao Prêmio Shell de Destaque Nacional em 2026.
Formado e mestre em Artes Cênicas pela UFRGS, Cuelli recebeu, em 2025, o Prêmio Açorianos de Melhor Ator de Teatro pela atuação em “Geppetto”, espetáculo desenvolvido com recursos do Financiarte. A montagem conquistou quatro troféus Açorianos e foi a única representante da Região Sul na categoria Destaque Nacional do Prêmio Shell em 2026.
Como começou a tua relação com o teatro?
Começou no Ensino Fundamental com uma professora chamada Ana Weber. Houve um período em que a Secretaria da Cultura de Caxias do Sul proporcionou uma formação com diversos professores da UFRGS e a partir disso muitos professores municipais tiveram acesso ao teatro e puderam desenvolver nos seus espaços de trabalho, a Ana foi uma dessas pessoas. Ela era professora de educação física e de teatro. Em um determinado momento, o João Tonus, aqui do Miseri, sabendo do envolvimento dela com o teatro, perguntou a ela se teria alguém para indicar para um papel na peça “A saga do rio das Antas”, que estava sendo montada. Ela me indicou, eu fiz o teste, fui aprovado e depois eu nunca mais sai do Miseri. Isso já faz 20 anos, foi em 25 de junho de 2006. Junto também teve um outro espaço, o Espaço Multicultural, que o filho da Ana tinha, e ali eu fiz aula de teatro e logo também passei a estar nos trabalhos: a gente animava festas como palhaços, fazia teatro, animava frente de loja. Então aquele início foi muito efervescente porque incluiu muitas experiências com um pessoal que já fazia teatro há muitos anos, com uma turma que estava começando empreendendo com espaço cultural e também com grupo de teatro, e nessas diferentes linguagens de relação com o público: o teatro de rua, o teatro de animação, o teatro mais empresarial.
Você tem trabalhos com diferentes linguagens: na sala de teatro, com as máscaras e também na rua. Tem algum formato que você prefira?
Todos os trabalhos são muito livres. O espetáculo de rua está sujeito a todas as interferências possíveis, então mesmo que ele tenha um roteiro, toda a sua estrutura narrativa, sempre é uma coisa de jogo. Recentemente em Belém, estávamos fazendo uma apresentação na rua e começou uma chuvarada. O que tu faz? Muda tudo. Às vezes são praças com pessoas em situações de rua, com camelôs gritando, enquanto em outros lugares são uma paz. É muito maluco. No teatro também: às vezes a gente está na Casa da Cultura, às vezes a gente está no salão paroquial levando a estrutura. Se a gente tem essa profissão e sabe que o mais importante é o teatro, o encontro com o outro, tá ok. Não há necessidade de a gente estar sempre em um edifício teatral clássico, todas as experiências teatrais são ricas porque tem o encontro com o outro e a gente, enquanto ator, tem que estar aberto para esse jogo, para estar presente. O teatro é isso: a arte de estar presente, no aqui, no agora.
O espetáculo “Geppetto” recebeu quatro prêmios Açorianos em 2025 e agora em 2026 foi indicado ao Prêmio Shell de Destaque Nacional, sendo único representante da região sul na premiação. Como vocês receberam essa notícia?
A indicação ao prêmio Shell é resultado de um tempo de pesquisa, de envolvimento e também de escolhas. Tem esse estudo da linguagem, que é com a máscara e com a marionete, e também tem esse entendimento de como eu compreendo a minha forma de diálogo com a plateia, porque isso é o legal de cada artista, compreender sua individualidade. Como o teatro é tão grande, ele é mundo que não se limita, não existe uma única linguagem, existem muitas possibilidades. Além da linguagem, também tem a temática que eu acho importante e acho que esse é um combo que chama atenção. É uma obra que está imbuída de toda essa caminhada, de todo esse desejo de contar algo de verdade. Eu acho que é um olhar muito legal para o nosso estado receber essa indicação, porque a gente começa a mostrar que no Rio Grande do Sul tem produções que se destacam. Claro que a premiação é um retrato daquele momento, mas é muito legal, porque é um grupo de jurados muito respeitado que indica. Então passar por isso, saber que o teu trabalho foi visto e indicado, tem um valor muito grande, ainda mais porque é um trabalho que une dois grupos que eu amo demais, que é o Miseri e o Máscara EnCena. O trabalho com o talian, que também está presente no “Geppetto”, e o trabalho com a máscara, essa união das linguagens é muito legal.
“Geppetto” foi uma peça produzida com o apoio do Financiarte. Por que é importante que existam políticas de incentivo e apoio à cultura?
Primeiro, a sociedade e os gestores precisam entender que a cada R$ 1 investido voltam quase R$ 8, segundo uma pesquisa divulgada em janeiro pela FGV, porque movimenta uma cadeia de pessoas imensa: costureiros, transporte, atores, técnicos, enfim. Então o primeiro motivo é o retorno financeiro para a sociedade e para os cofres públicos. Também tem a questão de direito de acesso à arte, que a gente tem como público. Como muitos trabalhadores vão chegar no fim do dia, sair de um bairro distante da cidade e vir até o centro? Essas políticas públicas precisam construir essa circulação da arte. Os grupos executam seus trabalhos, suas obras e precisam circular. Isso também ajuda na construção de público, porque, depois de ver dentro da sua comunidade, a pessoa que gostou, vai buscar em outros lugares para assistir. O terceiro ponto é o desenvolvimento do senso crítico. Um trabalho sempre vai abordar de forma crítica a nossa vida, a nossa sociedade. O teatro é político dentro da arte, porque quando eu construo um espetáculo que aborda as questões climáticas, é óbvio que todas as questões climáticas estão acontecendo por uma ação humana e por decisões também políticas.
Essa questão da indústria criativa foi bastante comentada durante a pandemia, onde se escancarou o número de pessoas que ficaram sem renda em função da pausa dos eventos de cultura. Em contrapartida, nessa época as artes, como música e cinema, foram especialmente valorizadas por causa do isolamento social. As pessoas esquecem rápido?
A gente tem memória curta, inclusive dos cuidados sanitários, dos cuidados com o outro. Mas eu sinto muito que os teatros, pelo menos é a realidade que eu tenho visto nos festivais, estão lotando. Eu acho que deu uma melhorada pós-pandemia na questão do público, porque eu acho que as pessoas reconhecem que o teatro é esse espaço tanto para o encontro com o outro como para viver uma realidade sem pegar o celular. Existe todo um ritual: sair da tua casa, chegar lá, respirando o mesmo ar. Tem vários autores de teatro que falam desse nosso ritual de estar em um espaço respirando o mesmo ar e vivendo aquela experiência, por mais que seja uma experiência diferente para cada um, mas é coletiva. As pessoas precisam dar uma chance ao teatro, porque existem espetáculos que às vezes não funcionam, não conseguem conectar porque a pessoa não está disponível naquele dia para se envolver ou porque a temática não é tão importante para ela. Mas quando o teatro é bom, é uma coisa absurda, dá aquela sensação de “tô vivo”. Ele é arrebatador quando ele mexe com as tuas emoções.
Você também é professor de teatro. O que torna o ensino de teatro importante?
Quando a gente está em um processo de ensino, a gente entra em contato com noções que só o teatro vai te dar, essa construção de escuta coletiva, de compreensão do outro. A gente vê a diversidade de olhares e de percepção que existe dentro de um espaço, o outro vai te ajudando a entender o mundo, então a gente vai criando uma inteligência emocional. Para mim, isso é importante no teatro: tu entra em contato com outras pessoas e se coloca em lugares que talvez tu não se colocaria, que não dizem respeito à tua classe social, mas no teatro tem essa possibilidade de tu viver todas as classes sociais, de tu pensar a partir delas e a partir daí construir o teu olhar sobre o mundo.
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