Vocalista dos Acústicos e Valvulados apresenta A tremenda noite do rei, no UCS Teatro, na próxima quarta-feira
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17.10.2026 - 07h31min
Entrevista realizada pela jornalista Ana Seerig.
Rafael Malenotti, vocalista da banda Acústicos e Valvulados, traz a Caxias do Sul seu projeto “A tremenda noite do rei”, uma homenagem à dupla Roberto Carlos e Erasmo Carlos. Acompanhado da Orquestra da Ulbra, o músico se apresenta no palco do UCS Teatro na próxima quarta-feira (21), a partir das 21h.
Na sexta-feira (10), quando estava com a agenda liberada de ensaios e antes de pegar a estrada para um show dos Acústicos, o músico bateu um papo com o Serra em Pauta sobre a apresentação em Caxias e relembrou sua relação de fã com os dois artistas homenageados.
Os ingressos para o show podem ser adquiridos pelo site Minha Entrada.
Ano passado, no aniversário do Erasmo (5 de junho), o Acústicos e Valvulados lançou um vídeo de “Minha fama de mau”. Qual é a importância dessa música para a história da banda
Isso foi uma obra do acaso. Por mais que eu seja fã do Roberto e do Erasmo desde criança, em nenhum momento me ocorreu que a primeira música que o Acústicos e Valvulados fosse gravar em português fosse uma deles. Essa sugestão de “Minha fama de mau” veio porque a gente foi convidado para fazer o programa “Romance MTV” em 1995 e na época eles falaram que não podia ter música em inglês, mas a gente não tinha feito nenhum registro em português. Um ano antes a gente já tinha sido selecionado pela Sony Music, eles mostraram interesse em trabalhar com a gente, mas não aceitavam bandas cantando em inglês, queriam que a gente passasse nossas músicas para o português. A gente disse que não tinha interesse porque, por mais que fosse a Sony dizendo isso, a gente não começou o Acústicos para monetizar a nossa paixão, que era o rock dos anos 50, e tudo que era feito do rockabilly em português a gente achava muito caricato, não nos soava bem. Mas quando a MTV nos chamou para gravar uma música, paramos para conversar, porque vimos todos que foram contratados pela Sony crescendo no meio artístico. A MTV não estava exigindo nenhuma grande mudança nossa, podíamos gravar uma música autoral, mas também podia ser um cover, então nos debruçamos no nosso baú de referências: Mutantes, Raulzito, TNT, Cascavelletes... Foi a irmã do Paulinho, nosso baterista, que sugeriu “Minha fama de mau” do Erasmo. Quando a gente lançou ela no programa da MTV, ela já entrou de forma alternativa nas rádios de Porto Alegre. Nos shows, que eram em inglês, quando a gente tocava “Minha fama de mau” a galera ia à loucura e aquele retorno era tão emocionante que a gente entendeu que tinha que cantar em português, então ela foi um divisor de águas para o Acústicos.
Qual é a influência da obra de Roberto e Erasmo na tua trajetória como músico?
Eu aprendi a tocar violão com as canções do Roberto e do Erasmo, com aqueles livros de cifras. Comecei com “Eu sou terrível”, “Parei na contramão”, músicas que eram mais simples. Ninguém na minha família era músico, mas todo mundo fazia parte da audiência de rádio e de tv, então eu pescava o que minhas tias, minha vó, minha mãe ouviam. Foi assim que eu comecei a cantar. Todo final de ano, quando tinha o especial de Natal na tv, eu já sabia as músicas que estavam sendo lançadas. Teve um ano que foi “A guerra dos meninos”, no final dos anos 70, em que tinham crianças cantando e aquilo me fascinava. Então meu alicerce cultural, musical, é do Roberto e do Erasmo.
Como começou o projeto “A tremenda noite do rei”?
Sempre que tinha o período de pausas de shows do Acústicos, eu pegava as músicas do Roberto e do Erasmo para tocar. Na segunda metade dos anos 90, eu comecei a chamar amigos para tocar comigo e montei uma banda com esse intuito. O projeto chamava “A noite do rei” e a homenagem era única para o Roberto, mas depois de muitos anos eu me dei conta que estava cometendo uma injustiça gigante com o Erasmo, porque não existiria um se não fosse o outro. Então incluí o termo “tremenda” no projeto e o meu repertório dobrou, porque eu tinha todas as músicas do Roberto para tocar mais as do Erasmo, que tem uma trajetória riquíssima. Entraram no show “Mulher”, “Pega na mentira”, “Mesmo que seja eu”, “Filho único”... O projeto tomou uma grandiosidade muito bonita e eu pude fazer jus à história e à importância do Tremendão na nossa cultura pop.
Mas aí o desafio ficou maior para selecionar o repertório, certo? Tanto Roberto quanto Erasmo têm décadas de sucessos. Como é feita a escolha do que vai entrar no show?
Só com o Roberto já era muito difícil, aí quando entrou a “tremenda” no meio do projeto teve canções do Roberto que não toquei mais porque o show não pode ter oito horas. Por enquanto eu estacionei o repertório em 1981, que é o disco que tem “Cama e mesa” e “Emoções”. Nos anos 90 eu já estava tocando e fazendo meu trabalho autoral, então também não prestava muita atenção, eu só conheço os singles, “Mulher de 40”, “Caminhoneiro”, mas eu tenho vontade de, no futuro, explorar algumas canções que são pontuais, inclusive “Esse cara sou eu”, que foi um grande retorno do Roberto para o holofote da música pop brasileira.
O Erasmo também teve um retorno recente aos holofotes com a música “É preciso dar um jeito, meu amigo”, que está na trilha sonora do filme “Ainda estou aqui”, vencedor do Oscar. Tu percebeu se isso levou a um aumento do público do teu projeto, talvez novas pessoas buscando conhecer a obra de Roberto e Erasmo?
Eu achei maravilhoso que eles incluíram a música na trilha sonora do filme porque ela teve uma exposição que até então nunca tinha tido, mas eu canto ela no show porque eu sempre achei ela muito linda, sem relação direta com o filme. Em relação ao público, é difícil eu te responder, como eu estou há 35 anos levantando a bandeira do Acústicos e Valvulados, eu só fazia esse show quando eu estava com saudades de me apresentar cantando Roberto e Erasmo, então eu programava e fazia.
Tu teve oportunidade de encontrar tanto Roberto quanto Erasmo, certo?
Sim, três vezes cada um. O Roberto só em camarim, mas o Erasmo tive oportunidade de entrevistar e conversar. Ele me deu o apelido de “cebola”, porque eu nunca consegui parar de chorar na frente dele. No mês passado eu fiz um show com a Wanderléa e com os Fevers, então pude conhecer a Wanderléa também. Foi lindo demais, saí de lá de alma lavada, com a impressão de que tô no caminho certo para manter esse legado. Um legado que me foi autorizado pelos dois. As canções que eu tenho editadas nas plataformas digitais tiveram as documentações assinadas por eles, pelo Roberto e pelo Erasmo, então eu me sinto chancelado por eles.
A apresentação em Caxias terá acompanhamento da Orquestra da Ulbra. Como surgiu essa parceria?
Isso nunca foi feito, em Lajeado (apresentação realizada dia 14 de outubro) e em Caxias vou estrear esse formato. Essa ideia surgiu no momento em que eu estava escrevendo o projeto, me sugeriram incluir uma orquestra e eu conversei com o maestro Tiago Flores, de quem eu sou muito amigo, porque eu já fiz algumas apresentações com a orquestra. Eles já tinham “Quero que vá tudo pro inferno” no repertório, então selecionamos outras canções. Algumas músicas eu nunca tinha tocado com a banda e vou tocar com a orquestra, como “A distância” e “Gatinha manhosa”. Então o show ficou com 15 músicas e ele tá muito bonito. “Minha fama de mau” estava no repertório, mas ficou tão legal o arranjo, que eu pedi para o maestro para tirar do show e guardar para fazer algo com o Acústicos e Valvulados, já que é uma música muito importante na nossa história.
O show de Caxias vai ser gravado?
Sim, eu vou tocar com a orquestra primeiro em Lajeado, mas escolhi registrar a apresentação no UCS Teatro para eu ter esse momento guardado para sempre. Quem sabe depois poder lançar, poder colocar no ar, mas não tenho pressa para fazer isso, porque o Roberto ainda está em atividade e o Erasmo recém faleceu. Se tudo der certo, eu posso chegar na idade deles cantando, então vou ter muito tempo para colocar no ar todos os registros que fiz nesses anos cantando Roberto e Erasmo. No meu último encontro com o Erasmo, ele me disse que eu ia chegar aos 80, então nada pode me tirar desse caminho.
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