O enólogo André Gasperin traz dois lados do impacto
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22.01.2026 - 19h54min
E o acordo do Mercosul é bom ou ruim para o vinho brasileiro? A discussão sobre o livre comércio com a União Europeia perdura há mais de duas décadas. Depois da assinatura no último sábado, dia 17 de janeiro, o Parlamento Europeu levou o tema ao Tribunal de Justiça da União Europeia e tudo indica que ainda teremos novos capítulos.
De qualquer forma, é preciso estar atento para a abertura de mercado mesmo sem sabermos quando. Para nos ajudar a responder como encarar a mudança, conversei com o enólogo André Gasperin, que traz os dois lados do impacto. Ele brinca ao destacar que sempre enxerga a taça meio cheia.
A visão de Gasperin é ampla porque, de um lado, ele representa a sua vinícola familiar de pequeno porte, a Don Affonso de Caxias do Sul. Mas ele também é o gerente de Enologia da Cooperativa Nova Aliança, de Flores da Cunha, uma das três maiores do Brasil.
O temor da concorrência com os produtos europeus, onde está a maior e mais tradicional produção mundial de vinhos, é o que mais predomina entre as vinícolas da Serra, mas há também uma perspectiva menos pessimista, a de tornar o produto nacional reconhecido.
"Se abrem desafios e oportunidades. Cada vez mais, as indicações de procedência e denominação de origem vão poder entregar um diferencial competitivo, que são nossas condições únicas de solo, clima e cultura regional. Assim como o brasileiro tem curiosidade em conhecer uma denominação de origem da Europa, o consumidor europeu vai se sentir instigado a conhecer um produto, um vinho ou um espumante, de uma denominação de origem do Novo Mundo", aponta Gasperin.
Seja qual for o impacto que for sentido, investir em produtos diferentes e que identificam o que é nosso já surte efeito até mesmo dentro da concorrência interna e, principalmente, com os produtos dos nossos vizinhos, caso de Chile e Argentina.
Na Dom Affonso, um exemplo é o vinho laranja com um corte de 80% de Sauvignon Blanc e 20% de Chardonnay e que passa por uma maceração de 12 meses.
"Ele é um vinho branco com personalidade de tinto", destaca a sommèliere Tiane Simon.
Falando nos espumantes, que têm projetado o Brasil lá fora, também dá para apostar em variedades de uvas brancas menos tradicionais para a bebida. Um exemplo são os espumantes de Trebbiano, elaborados tanto pela Don Affonso quanto pela Nova Aliança, onde Gasperin atua.
"Foi uma das variedades tradicionais que vieram com os imigrantes italianos, que a gente brinca que veio na mala do imigrante, e que foi uma das primeiras plantadas aqui na região junto com Barbera, Peverella e que forma esse trio. Nos últimos anos, ela tem tido esse destaque bastante interessante nos espumantes", conta.
E falando em mercado internacional, vale destacar outro produto diferencial da Don Affonso e que se enquadra nos vinhos Torna Viagem. Ao longo da história, se convencionou chamar assim os vinhos fortificados no tempo das grandes navegações. Eles precisavam passar por esse processo de adição de álcool viníco justamente para a conservação em uma longa viagem de ida e volta.
O vinho licoroso da linha Distinto da Don Affonso é um exemplo de produto que, mesmo com a abertura do mercado europeu, berço dos vinhos fortificados mais importantes do mundo, seguiria se destacando justamente por ser produzido em uma região que não tem tradição na bebida.
"É um dos vinhos licorosos mais premiados a nível de América Latina, que entrega toda essa questão de terroir e de uma história muito particular por trás dele", aponta o enólogo.
O fundador da vinícola, Affonso Gasperin, elaborava todos os anos um pequeno lote deste vinho que era destinado originalmente a ser doado e utilizado nas celebrações de missas da comunidade local.
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