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Forasteiro Ingrato

Idair Moschen, ex-vereador, ex-diretor-presidente do Samae e ex-diretor-presidente da Festa da Uva

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Jornalista - Redação

redacao@serraempauta.com.br

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Chegou à cidade com uma mala puída e um punhado de incertezas. A terra que o acolheu não lhe fez perguntas difíceis; ao contrário, abriu-lhe as portas. Viu no asfalto quente e nas praças barulhentas a chance de recomeçar. Ali, matriculou os filhos na escola do bairro, usou o posto de saúde quando a febre apertou e fez erguer, tijolo por tijolo, a vida confortável que hoje ostenta. A nova cidade, gerida pelo imposto e pela força coletiva de quem ali fincou raízes, foi-lhe mãe generosa.

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No entanto, o coração do homem permaneceu trancado em um passado distante. Vinte anos se passaram, mas ele insiste em andar por essas ruas como quem apenas pede passagem. Para ele, o verdadeiro lar ainda é a terra natal, aquele vilarejo remoto do qual se orgulha de longe, mas onde nunca mais voltou a morar.

O problema não é a saudade. O afeto pela própria origem é legítimo, quase sagrado. A ferida se abre na hora das escolhas. Quando a cidade que lhe deu tudo precisa do seu compromisso, o homem vira as costas. Na hora de decidir os rumos políticos e o destino dos recursos locais, ele prefere direcionar suas forças e influências para fortalecer o lugar de onde veio, ignorando as necessidades urgentes da comunidade onde dorme e ganha o pão.

Enquanto desfruta dos serviços públicos bem estruturados, da segurança e da infraestrutura da cidade que o adotou, ele sabota silenciosamente o futuro dela. Trata o lugar que o enriqueceu apenas como um balcão de negócios, um solo onde se colhe, mas nunca se planta. A terra natal fica com o amor e os investimentos; a terra acolhedora fica apenas com a conta dos serviços consumidos.

Há uma profunda injustiça no olhar de quem usa a casa dos outros sem nunca se sentir responsável pela limpeza da sala. Esse forasteiro não percebe que, ao negar seu apoio ao solo que o sustentou, ele envenena a própria água que bebe. A gratidão não exige o esquecimento das origens, mas pede, no mínimo, respeito ao chão onde a vida floresceu.

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