Músico relembra formação artística, mudanças no consumo cultural e o novo álbum gravado em espanhol
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26.09.2026 - 09h19min
Entrevista realizada pela jornalista Ana Seerig.
O músico Frank Jorge esteve no final de semana passado em Caxias do Sul para fazer dois shows com Os Cascavelletes, uma das bandas que marcaram sua carreira. Depois ainda teve a Graforréia Xilarmônica e trio Cowboys Espirituais, junto com Julio Reny e Marcio Petracco). No domingo, comemorou seus 60 anos.
Um dia antes, o compositor e multi-instrumentista resgatou suas primeiras memórias com a música, refletiu sobre os desafios trazidos pela tecnologia e falou sobre seus projetos mais recentes na carreira solo que chega ao décimo álbum.
Como começou o teu contato com a música?
Desde pequeno, eu tive uma casa que, embora eu tenha perdido o pai muito cedo, eu sou de setembro de 1966 e meu pai faleceu em fevereiro de 1968, mas era uma casa que, tanto meu pai como a minha mãe, eram pessoas que gostavam muito de música. Ela, antigamente se dizia dona de casa, ela estudou francês, tocava piano, mas não fez um curso superior. Ela tinha um traço cultural e um gosto por música, literatura, tudo. Eu sendo caçula de seis filhos, eu estava ouvindo o que os meus irmãos ouviam: Tropicália, rock'n'roll, muito rock'n'roll, mas muita música brasileira, música brega. Tinha uma tia-avó que ouvia muito rádio. Eu ouvia o rádio AM, as músicas mais bregas, populares. E toda uma curadoria das minhas três irmãs e dois irmãos. Foi despertando em mim um interesse grande por música. Muito como ouvinte primeiro, colecionador de disco. Já tinha um monte de vinis em casa. Tinha uma curadoria no rádio, que tu ouvia em casa. Curadoria que tu ouvia na aula de música no colégio, no tempo em que o colégio público tinha aula de música também. Uma das recordações mais antigas de música é o Tim Maia, que tocava lá na Redenção. Eu ouvia “Gostava tanto de você”, “Primavera”. Meu pai era médico e era muito próximo do trabalhismo, do Leonel Brizola, do João Goulart, sempre foi o natural, mesmo sendo filho de um latifundiário de Uruguaiana, ele foi um cara progressista, e isso ficou como uma herança também, ter um pouco esse perfil: um perfil cultural, um perfil humanista. Até eu chegar a tocar um instrumento demorou um pouco. Tanto o Érico como a Glória, dois dos meus três filhos, começaram a ter aula muito cedo, por volta dos nove, 10 anos. Eu comecei com 14 para 15 anos.
E o que te motivou a finalmente aprender a tocar? Qual foi o instrumento?
A coisa começou a se organizar em relação à música eu tendo aula de violão com um amigo de um amigo de uma irmã. Um desses amigos levava o violão. Eu ficava meio hipnotizado por aquilo, isso com 13 para 14, eu acho. E daí com 15 para 16, levou um tempinho, esse amigo que levava o violão tinha um amigo que dava aula de violão, que era um cara chamado Foguinho (Marcos Azevedo) e ele era de uma banda instrumental, meio bossa nova, jazz, som Brasil. Esse cara era um exímio guitarrista. Depois comecei a ter umas aulas de piano também.
Ao longo de todos esses anos de carreira, como é que tu tem percebido as mudanças no consumo da música e a relação entre a artista e público?
Acho que gente que acompanha, seja a Graforréia, seja o Frank solo, gente que acompanha e gosta, respeita, entende a busca por trabalho autoral, a busca até por um exercício de liberdade, de tu fazer a tua música do seu jeito. Sucesso é tu fazer as coisas como tu gosta de fazer, a maneira como tu te expressa, compondo, tocando, tocando baixo, tocando guitarra. Antigamente o público te ouvia, te conhecia através do rádio, através da TV, através das mídias tradicionais, né? E hoje com a internet é uma coisa... Eu uso mais o Instagram como mídia social. Eu uso porque o eventual contratante de Vacaria, por exemplo, ele vai querer te contratar porque ele vai lá olhar na tua mídia o quanto tu anda atuando. Tem que ser meio estratégico no jeito como tu lida com mídias sociais, como tu lida com o público. A tendência das pessoas às vezes é valorizar algo que tá super na mídia, tá super bem divulgado ou tem determinado atributo e a gente sempre trabalhou muito na guerrilha, muito independente.
Em 2008 foi aprovada uma lei que determina o ensino de música no ensino básico, mas até hoje isso não é de fato uma realidade. Tu acha que a percepção e valorização cultural do Brasil seria outra se de fato houvesse essa educação musical nas escolas?
Isso é muito complexo. Meu irmão mais velho gosta de dizer que, se o pai não tivesse falecido, os rumos das nossas vidas seriam muito diferentes. Cada um acabou fazendo o que bem entendia: um é jornalista, outro é nutricionista, eu fiz letras e música, mas a gente tinha esse caráter humanista progressista e daí nunca me foi questionado fazer letras ou fazer música, se isso é bom, se não é rentável. Eu acho que a música é fundamental na formação, porque às vezes o cara tem uma formação específica, é médico, por exemplo, mas é fã de música e toca por hobby. A música, muito além de qualquer coisa, ela também é muito entretenimento, ela é uma expressão popular genuína muito espontânea.
Durante a pandemia, o trabalho dos artistas se tornou mais visto. Depois da pandemia, houve uma maior valorização dos shows, de ver o artista ao vivo?
Eu não sei o quanto as pessoas passaram a valorizar mais a música, a cultura. Pode ter impactado algumas pessoas, mas acho que o músico que tá há mais tempo ativo, tu acaba tendo talvez mais know-how de ver que projeto tu vai acabar fazendo de banda, como tu vai tocar o teu trabalho, como tu vai organizar um projeto e cobiçar uma determinada verba, uma letra, eu acho que com o tempo tu é meio obrigado a ir aprimorando esse know-how. Tive bons momentos tocando com popularidade com determinada banda, música despontando aqui e ali, só que é uma montanha russa tremenda. Muitas vezes tive trabalhos fixos, seja em secretaria de cultura, universidade, fiz um monte de coisa, nunca deixando de compor, tocar. Tu tem uma trajetória de 40 anos e às vezes tem pessoas na tua cidade ou em cidades próximas que nunca ouviram falar das tuas bandas ou do teu nome.
Além dos shows com os Cascavelletes, tu está preparando o décimo disco solo, finalizando o doutorado - os 60 anos estão chegando com muitas coisas acontecendo.
Eu gosto bastante de fazer show, acho que é importante, gosto de tocar o instrumento, toco contrabaixo nos Cascavelletes, toco guitarra no Frank solo, baixo na Graforréia, mas o show é um show longo, é um show de duas horas e eu estou há muitos anos com sobrepeso, então o show ele é legal, mas me dói um monte os joelhos antes, durante e depois. Onde eu me realizo também é o lance da gravação. Eu gravei um material com a ideia de lançar antes do aniversário, mas não aconteceu. Ele está pronto, mas eu quero ainda revisar algumas coisas de mixagem. O disco para mim é sempre uma realização, é algo que, muito além de oferecer isso para o público, é uma coisa que me satisfaz muito gravar material novo. Com o Frank solo eu estou chegando no décimo álbum, então mostra o quanto eu estou sempre, dentro do possível, compondo e gosto de registrar isso logo, para botar na roda, e por um prazer pessoal. Eu estou muito com essa função Porto Alegre-Buenos Aires, eu tenho uma demanda ainda em 2026 de bastante coisa no Brasil, mas eu quero fazer mais imersões ainda na Argentina e está por sair em vinil um disco meu que eu gravei em espanhol em 2024 (“Um tipo muy raro”).
E como foi compor em espanhol?
Foi, ainda é, estranho, mas foi um pouco de coragem, um pouco de cara de pau, porque por mais que tu escute música em espanhol, leia em espanhol, estude, eu não fiz nenhum curso oficial. Na época do curso de Letras eu estudei um pouquinho, mas ainda tenho muito a desenvolver. Minha filha, que está na Argentina há três anos, ela tem um espanhol muito fluente, muito absurdamente portenho. Eu fiz meio do meu jeito, meu principal amigo argentino, Leandro, ele disse: “é bacana de ver o que tu fez, porque mostra o teu esforço, a tua dedicação”.
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