Em passagem pelo Aldeia Sesc, atriz também fala sobre os 44 anos de carreira e o lançamento de sua biografia
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07.11.2026 - 07h30min
Entrevista realizada pela jornalista Ana Seerig.
O 13º Aldeia Sesc começa na próxima quarta-feira (11), com o tema “Mulheres do tempo: vozes e legados”. Entre as atrações da programação está o monólogo Nasci pra ser Dercy, protagonizado pela atriz Grace Gianoukas, que dá vida à trajetória de Dercy Gonçalves e destaca a coragem, a irreverência e a força da artista que marcou a cultura brasileira.
Com mais de três anos em cartaz, o espetáculo também se tornou uma homenagem à trajetória de Dercy e à luta das mulheres. Em entrevista ao Serra em Pauta, na última segunda-feira (2), Grace falou sobre o processo de construção da personagem, a admiração pela homenageada e a importância de manter vivo seu legado. A atriz também comentou os 44 anos de carreira e o lançamento de sua biografia, Estado de Grace, previsto para 1º de dezembro.
Os ingressos para o espetáculo estão disponíveis no site do Sesc.
Confira a entrevista.
“Nasci para ser Dercy” está há mais de três anos em cartaz. Como está sendo essa experiência?
É maravilhosa, porque um espetáculo nunca é igual ao outro. Cada apresentação é um público, o que é muito interessante, porque tem lugares em que eu sou muito surpreendida pela sagacidade, pela inteligência, pela sensibilidade do público, então é sempre uma novidade. Para mim, estar fazendo o espetáculo há três anos, desde janeiro de 2023, levar a história da Dercy adiante e também fazer desse espetáculo uma homenagem às mulheres é tirar a Dercy da prateleira e humanizá-la. Eu acredito que seja muito importante para todas as mulheres que assistem, de todas as idades, honrar tudo que a gente viveu para chegar até onde a gente está hoje. Esse espetáculo coloca um pouco a luta da Dercy contra um preconceito absoluto e com alusões do preconceito social para fazer grana, porque ela foi uma mulher muito esperta, muito inteligente. O marketing dela acabou sendo sempre o escândalo. Ela cansou de sofrer, digamos assim, e resolveu inverter a coisa a seu favor.
Qual é o legado da Dercy para o Brasil e qual é a importância de falar sobre ela nos dias de hoje, em que os direitos da mulher estão sendo questionados por alguns?
Eu acho fundamental. Acima de tudo, o que o espetáculo mostra é uma coragem muito grande da Dercy. Ela era uma mulher de uma personalidade muito forte, que era muito brincalhona, muito inteligente, com um raciocínio muito rápido. Ela era uma mulher de vanguarda na sua criação: a Dercy tinha capacidade de improvisar, de sacar tudo, de olhar o universo e fazer conexões. Ninguém conseguiu domá-la. Não que a Dercy fosse uma santa, ela tinha um gênio às vezes do cão. E tinha também, como uma pessoa nascida em 1907 e que teve acesso à pouquíssimo estudo, ela estudou só até a 2ª série, ela tinha muitos preconceitos. Então a gente vê muitas opiniões da Dercy contraditórias através dos tempos e ela era uma pessoa um pouco contraditória, ela falava o que ela pensava, não tinha papas na língua, não ficava filosofando muito. A gente vê frases da Dercy bastante preconceituosas, mas o preconceito da época. O que eu vejo, o que eu percebo na trajetória da Dercy é que, à medida que ela foi viajando mais, que ela foi conhecendo mais o mundo, que ela foi fazendo terapia inclusive, ela foi ampliando o olhar dela e ela foi deixando de trazer falas tão arcaicas, porque ela era uma mulher de vanguarda. Não em todos os pensamentos, mas é importante levantar esse legado e entender também o contexto em que essa mulher se desenvolveu, um patriarcado sufocante, então ela é uma mulher de muita coragem.
Como você se preparou para viver Dercy Gonçalves no teatro?
Na verdade, eu tive um mês de ensaio. Eu fui convidada pelo autor, o Kiko Rieser, que tinha feito uma pesquisa bem profunda, e quando ele me chamou eu estava em turnê com o meu espetáculo “Grace em revista”, então eu não tinha agenda, só tinha dezembro para ensaiar porque a peça tinha que estrear em janeiro. Eu aceitei e, nos períodos que eu tinha em São Paulo, a gente se encontrava, assistíamos coisas juntos, lemos o texto, ele me deu algum material que tinha pesquisado, e, enquanto eu viajava em turnê, eu fui revendo tudo que eu já tinha visto sobre a Dercy com um outro olhar. Quando eu nasci, a Dercy já era uma instituição, ela já era um ícone. Tinha o Sílvio Santos, o Papai Noel, o Coelhinho da Páscoa, a Dercy Gonçalves, a Hebe, o Chico Anysio – eram figuras inquestionáveis que existiam. Eu nunca tinha parado muito para pensar a respeito da Dercy, gostava dela, achava engraçada, mas nunca tinha me aprofundado como fã. Eu tinha ido ver espetáculo dela e uma vez, quando cheguei a São Paulo, fui convidada pelo Jornal da Tarde para encontrar com a Dercy junto com outras atrizes, o que foi muito interessante, ela foi muito querida, mas esse foi o contato mais aprofundado que eu tinha tido. Quando eu comecei a rever tudo dela pensando em interpretá-la, a primeira coisa que eu fui buscar desesperadamente foi quem era a Dercy por trás da figura pública, então perguntei para muitos amigos que trabalharam com ela e fiquei revendo entrevistas, e não só apresentações e filmes. Tem três entrevistas dela bem interessantes no Roda Viva, em que ela é muito espontânea, verdadeira. Eu percebi que, à medida que ela ia falando de coisas mais íntimas, de coisas que chateavam, ela mexia um pouco na roupa, mexia no colar, que a vontade dela era sair correndo para se proteger. O que é muito interessante são as histórias que eu fui ouvindo à medida que eu fui levando a Dercy pelo Brasil e que me ajudaram a ir fortalecendo e recheando mais a pessoa física da Dercy e não a pessoa jurídica.
Se lá atrás a Dercy não era uma referência forte para você, qual é a sua relação com ela hoje?
De profunda admiração, de profundo respeito, de referência de luta feminina, de coragem, mesmo sem saber que ela estava sendo uma feminista, sem levantar nenhuma bandeira. Às vezes eu sinto que está na hora de parar, mas de repente me vem um convite para uma coisa enorme, vem a resposta para uma coisa que a gente já tinha mandado há muito tempo, então me parece que a Dercy não quer que eu pare. Seja lá onde estiver Dercy, eu acho que ela está feliz, porque é um espetáculo que celebra ela como mulher, como guerreira, como artista e, acima de tudo, mostra a força que ela tinha. Por exemplo, aos 70 anos ela perdeu tudo porque ela foi roubada pelo contador dela e ela falou: “vou reconstruir meu patrimônio”. Ela vendeu tudo que ela tinha, menos a casa onde morava a irmã e a filha, ela ficou com um kitnet em Copacabana, comprou uma kombi caindo aos pedaços e foi fazendo turnê, de cidade em cidade, foi se recompondo. A Dercy era incansável, então é um exemplo. Se eu estou com dor aqui, ali, não interessa, eu vou contar a história dessa mulher, porque ela me fortalece cada vez que eu subo no palco para contar a história dela. É por ela, somos nós duas juntas. Virou uma missão para mim.
Você também marcou a humor brasileiro com o “Terça insana” e em dezembro será lançada a sua biografia, “Estado de Grace”. Como surgiu a ideia de contar a sua história?
O Daniel Funes sempre acompanhou a minha trajetória, desde os tempos de “Terça insana”, e há uns três anos ele falou que queria fazer uma biografia minha. Ele disse que era importante, que tinha uma galera interessada no meu trabalho e que gostariam de saber mais de mim. Eu disse: “se tu tá com saco para escrever, escreve”. Calhou de estar com uma assessora me ajudando a organizar o meu acervo e coloquei ele em contato com ela. A biografia ficou pronta com consulta em muito material de imprensa, ele entrevistou pessoas que conviveram comigo e que gostam do meu trabalho, e a editora Afluente se interessou em publicar. O livro está em pré-venda e o lançamento é em 1º de dezembro. Tomara que as pessoas se interessem, consigam comprar, consigam ler. Eu estou com 44 anos de carreira e estou muito feliz de ter insistido, de ter seguido, de estar vivendo um momento em que as pessoas se interessam pelo meu trabalho. Eu consegui levar com o meu trabalho um pouco de alegria para esse país que precisa tanto. Eu me sinto muito realizada de poder estar levando meu trabalho para o Brasil e poder levar um pouco de alegria e de conforto para os nossos corações que estão tão angustiados.
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