Vanderléa Ghisi Marangoni, psicóloga, administradora de empresas e diretora da Metalúrgica Guarany
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11.05.2026 - 18h14min
Como empresária na Serra Gaúcha, acompanho com preocupação declarações que tratam a revisão da jornada de trabalho como um incentivo à ociosidade. Dizer que discutir um novo modelo de trabalho é criar um "país de vagabundos" revela uma leitura rasa da realidade social e produtiva do Brasil.
O que vivemos hoje dentro das empresas não é falta de vontade de trabalhar. É o esgotamento de um modelo que parou no tempo.
Ainda submetemos muitos trabalhadores a jornadas de nove horas diárias para compensar o sábado. Na prática, isso significa finais de expediente marcados por fadiga, queda de concentração e perda de eficiência. A conta chega para todos: para o trabalhador, que adoece; e para a empresa, que perde em produtividade, qualidade e segurança.
A produção mudou. A automação, a inteligência artificial e a digitalização aceleraram processos e exigem cada vez mais atenção, raciocínio e capacidade de adaptação. Mas parte da nossa legislação e das práticas organizacionais ainda opera com a lógica de um tempo industrial que já ficou para trás.
As pessoas também mudaram. O trabalhador de hoje valoriza a saúde mental, o convívio familiar e a possibilidade de exercer com dignidade seu papel dentro e fora da empresa. Isso não é fraqueza. É consciência sobre qualidade de vida e equilíbrio.
Defender a redução ou a revisão da jornada não significa defender menos compromisso. Significa defender a sustentabilidade operacional. Produtividade não se mede apenas em horas de presença, mas em capacidade real de entrega, foco e bem-estar.
Essa discussão se torna ainda mais necessária diante das novas exigências da NR-1, que amplia a atenção ao Gerenciamento de Riscos Ocupacionais. É um avanço importante, mas me parece incoerente exigir programas cada vez mais complexos de saúde ocupacional sem enfrentar uma das causas centrais do adoecimento: a carga horária exaustiva.
Não faz sentido cuidar apenas dos efeitos sem discutir a origem do problema.
Ao mesmo tempo, essa conta não pode recair apenas sobre o setor produtivo. Se queremos mais qualidade de vida para o trabalhador, o governo também precisa garantir melhores condições para quem empreende e emprega. É preciso uma grande troca: mais equilíbrio para os profissionais e mais saúde financeira para as empresas, com desoneração e redução da carga tributária.
Também é preciso olhar para o médio empresário, que sustenta a economia regional e muitas vezes vive jornadas de 14 horas por dia, sem férias, sem rede de proteção e sob pressão constante para manter a operação e os empregos.
Modernizar o trabalho não é escolher entre produtividade e bem-estar. É entender que um depende do outro. O mundo mudou, as relações mudaram e a forma de produzir também precisa evoluir. Insistir em modelos ultrapassados só amplia o desgaste de trabalhadores e empresários.
Modernizar a jornada não é premiar a ociosidade. É preservar a saúde, a eficiência e a sustentabilidade do trabalho.
Mais do que um embate ideológico, esse debate precisa ser tratado como uma agenda de responsabilidade econômica e humana. Rever a jornada de trabalho com seriedade, diálogo e critérios não enfraquece a cultura do trabalho; ao contrário, fortalece empresas, protege pessoas e prepara o Brasil para uma realidade produtiva mais inteligente, competitiva e sustentável. O verdadeiro atraso não está em discutir mudanças, mas em insistir que trabalhar mais horas, a qualquer custo, ainda seja sinônimo de produzir melhor.
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