A criatividade não substitui aquilo que construímos, mas amplia o valor do que já sabemos fazer e abre novas possibilidades para o desenvolvimento
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27.10.2026 - 16h40min
Quando falamos em desenvolvimento econômico na Serra Gaúcha é natural pensar em indústria, agricultura, comércio e turismo. Foram essas forças que ajudaram a construir uma das regiões mais prósperas do país. Mas quero provocar uma reflexão: se repetirmos apenas as estratégias que nos trouxeram até aqui, elas serão suficientes para nos levar adiante?
A minha opinião é que não. O próximo salto da Serra dependerá da nossa capacidade de combinar produção, conhecimento, cultura, tecnologia e identidade. Em outras palavras, dependerá de tratarmos a Economia Criativa não como um assunto periférico, mas como uma estratégia real de desenvolvimento econômico.
Os números ajudam a tirar essa conversa do campo das boas intenções. Em 2020, a Economia da Cultura e das Indústrias Criativas respondeu por 3,11% do PIB brasileiro — aproximadamente R$ 280 bilhões. Entre 2012 e 2020, esse conjunto de atividades cresceu 15,5%, enquanto o PIB total do país avançou 1%. No terceiro trimestre de 2024, o setor alcançou cerca de 7,8 milhões de trabalhadores, com a criação de 228 mil postos em relação ao mesmo período do ano anterior.
Há outro dado que deveria chamar especialmente a nossa atenção: a Região Sul respondeu por 20,48% da contribuição regional dessa economia em 2020. Isso indica que não estamos falando de uma tendência distante, concentrada apenas em grandes capitais. Existe uma base concreta para transformar criatividade em renda, empresas, empregos e competitividade perto de nós.
Caxias do Sul, por sua vez, tinha 463.501 habitantes no Censo de 2022, 216.460 pessoas em postos formais de trabalho e PIB per capita de R$ 81.683,97 em 2023. É uma cidade grande, produtiva e com capacidade instalada. Mas esses números também trazem uma responsabilidade: uma economia desse porte precisa diversificar suas fontes de valor e criar oportunidades capazes de atrair e reter talentos.
E poucos territórios têm tantos ingredientes quanto a Serra Gaúcha. Temos um parque industrial robusto, universidades, conhecimento técnico, gastronomia, vinho, arquitetura, patrimônio histórico, festas, paisagens, música, design e uma narrativa de empreendedorismo construída por diferentes gerações. A pergunta não é se possuímos ativos criativos. A pergunta é porque ainda não os conectamos em uma estratégia regional mais ambiciosa.
Essa conexão pode acontecer de muitas formas. O design pode aumentar o valor percebido dos produtos industriais. O audiovisual pode transformar nossas paisagens, histórias e empresas em narrativas que circulam pelo mundo. A tecnologia pode criar jogos, plataformas, experiências turísticas e soluções para setores tradicionais. A gastronomia e o vinho podem gerar propriedade intelectual, eventos e novos modelos de negócio. A arquitetura, a moda, a música e o artesanato podem fortalecer marcas territoriais e ampliar o tempo de permanência de quem nos visita.
Não se trata de escolher entre indústria e criatividade. Essa seria uma falsa disputa. A Economia Criativa pode ser justamente a camada que torna a indústria mais inovadora, o turismo mais memorável, a cultura mais sustentável e as cidades mais desejadas para viver, empreender e investir.
Para isso, precisamos ir além de eventos isolados. É necessário mapear os empreendedores criativos da região, aproximá-los das empresas tradicionais, ampliar o acesso a financiamento, formar profissionais, estimular compras locais e construir indicadores que permitam acompanhar resultados. Talvez a maior mudança seja cultural: precisamos parar de enxergar a criatividade apenas como talento individual e começar a tratá-la como infraestrutura econômica. Assim como investimos em estradas, máquinas e pavilhões, também precisamos investir em repertório, redes, espaços de experimentação e ambientes onde boas ideias encontrem mercado.
A Serra Gaúcha já mostrou que sabe transformar dificuldades em trabalho e trabalho em prosperidade. Agora, o desafio é transformar identidade, conhecimento e imaginação em valor. O futuro não exige que abandonemos aquilo que somos. Exige que sejamos ainda mais capazes de reinventar o que fazemos.
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