Na contramão do discurso comum e do mercado, a valorização daquilo que emociona e conforta já é uma realidade
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29.07.2026 - 08h44min
Os eventos setoriais são palco das principais discussões sobre o mercado e apresentam tendências e desafios nos quais nossas empresas e comunidades estão inseridas. Mas há um tema monopolizando as conversas sobre o nosso futuro: a inteligência artificial.
Há uma grande promessa sobre o futuro. É quase consenso que esta tecnologia faz parte de uma revolução e tem o potencial de reorganizar processos, empresas e a forma como operamos em diversas atividades. A partir da sua capacidade analítica, poderá antecipar acontecimentos, demandas e, com isso, gerar vantagens competitivas para os negócios. Pouco se discute sobre outros temas. A inteligência artificial é a queridinha da vez.
Não discordo do potencial da inteligência artificial nem da importância de olhar para essas oportunidades. Por outro lado, tenho algumas ressalvas sobre sua adoção. Tenho visto o uso de prompts para tornar um e-mail mais simpático. Acho um grande desperdício de tempo e energia — elétrica, inclusive. Diante de toda a especulação em torno do tema, tenho refletido sobre aquilo que mais aprecio na minha rotina.
Pelas manhãs, costumo treinar antes de ir ao trabalho. É meu jeito de garantir a atividade física antes das outras agendas. Ao retornar, gosto de ler as principais notícias e dedico meia hora a isso. Poderia consultar um resumo feito pela IA? Poderia. Mas, a leitura também é uma atividade cognitiva importante, capaz de ampliar meu repertório de vocábulos e palavras. Invisto nisso.
Meus amigos certamente não precisam consultar nenhuma inteligência artificial para saber que minha comida preferida é o Bauru do Ivaldo, na Rua Tronca: farto em molho e com pãozinho caseiro. Também sabem que, se um dia eu estiver muito deprimido, o remédio será a torta de limão com merengue da Franceska Venzon. Se você não sabia, talvez agora possa se credenciar ao meu grupo VIP de melhores amigos, mas fique tranquilo que não haverá mensalidade ou e-mail marketing.
Os prazeres da nossa vida são feitos de momentos. E muitos desses momentos são únicos justamente pela humanidade que carregam. O gesto de uma pessoa que prepara alimento é afeto e arte. Será que, em algum momento, teremos a mesma felicidade ao experimentar o fazer de uma máquina? Para além da gastronomia ou da confeitaria, os fazeres manuais devem se tornar cada vez mais relevantes e valorizados. Ou você tem encontrado bons marceneiros e costureiras com facilidade?
O monopólio sobre o debate de futuros atende a interesses de alguém. Mas a revolução tecnológica não é a única a influenciar o nosso tempo. As mudanças climáticas fazem parte desta equação. Há ainda a mudança da nossa perspectiva em relação ao trabalho, o distanciamento das relações, a violência crescente e a nossa crise de atenção. São tantos os temas para debater e pesquisar. Há tanto para fazer e aprender. Realmente, espero que a inteligência artificial acelere a construção de soluções para todos esses desafios...
Até lá, eu sigo acreditando numa experiência humana e artesanal. Dedicando tempo para os meus. Lendo. Estudando. Acreditando que o melhor da nossa experiência ainda é humano e artesanal.
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