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Criatividade e Tendências

As pessoas fazem falta, sim

As tarefas que desempenhamos podem ser realizadas por terceiros, mas a nossa forma de cuidar, o empenho e a nossa presença, não

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Jornalista - Bruno Bazanella

redacao@serraempauta.com.br

Divulgação
As pessoas fazem falta, sim

O feriado de Finados me fez pensar nas pessoas que já não estão aqui e naquilo que permanece delas em nós. Uma conversa, um conselho, a receita de um bolo, sonhos a realizar, um jeito de acolher ou de enxergar o mundo. A saudade não é de uma função que alguém desempenhava, mas de uma presença que tinha nome, história e identidade. Talvez por isso me incomode tanto ouvir, como se fosse uma verdade incontestável, que todas as pessoas são substituíveis.

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No México, a celebração do Día de los Muertos oferece uma imagem bonita para essa reflexão. Em suas diferentes expressões, famílias homenageiam quem partiu com flores, velas e suas comidas preferidas. Nas tradições indígenas, a celebração acolhe o retorno temporário dos entes queridos: a lembrança se transforma em encontro. Sem reduzir Finados ao silêncio, nem a festa mexicana à alegria, vejo nessas formas de recordar uma afirmação comum: aquela pessoa importa, e sua história merece continuar entre nós.

Há quem diga que uma empresa não pode depender de ninguém e que todo trabalho precisa ter continuidade. Concordo com a necessidade de preparar equipes, compartilhar conhecimento e organizar sucessões. Mas tenho um contraponto: substituir alguém em um cargo não significa substituir a pessoa. Outra pessoa pode assumir a responsabilidade e fazer um excelente trabalho, sem reproduzir a trajetória, os vínculos e o olhar de quem esteve ali antes. Continuidade não é sinônimo de equivalência.

Mesmo nas tarefas, que podem ser realizadas por diferentes pessoas, existe espaço para a contribuição de cada indivíduo. Um procedimento orienta o que precisa ser feito, mas não esgota o cuidado, a criatividade e a experiência de quem o executa. A maneira de ouvir uma demanda, perceber um detalhe ou propor uma solução também faz parte da entrega. Podemos distribuir atividades e ensinar métodos; não deveríamos, por isso, tratar como indiferente quem os coloca em prática.

Em projetos e empresas, proponho reconhecer a identidade, a experiência de vida e a presença das pessoas como um ativo a ser valorizado. Não no sentido de reduzir gente a um recurso ou de medir seu valor apenas pelo resultado que produz. Pelo contrário: trata-se de abrir espaço para aquilo que cada pessoa pode acrescentar a partir de sua história. Valorizar esse patrimônio humano pede escuta, reconhecimento, oportunidades de participação e condições para compartilhar saberes. Não basta dizer que as pessoas são importantes se suas vozes não encontram lugar nas decisões.

Nas nossas comunidades, vale o mesmo convite. Quem aproxima vizinhos, acolhe quem chega ou mantém viva uma história local deixa uma contribuição que não cabe apenas numa lista de atividades. Outras pessoas podem continuar esse trabalho, e é importante que continuem, mas cada uma acrescentará sua própria marca. Reconhecer a singularidade de alguém não é criar pessoas intocáveis ou impedir mudanças. É compreender que construir o coletivo não exige apagar as diferenças que lhe dão vida.

Não precisamos esperar a ausência para reconhecer uma presença. Podemos agradecer, ouvir, aprender e dar espaço enquanto há tempo de conviver. Funções podem ser ocupadas, tarefas podem ser redistribuídas e projetos precisam seguir. As pessoas, porém, não são peças idênticas: deixam marcas, fazem diferença e fazem falta, sim.

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