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Entrevista de Sábado

Da tuba à regência: maestro constrói carreira dentro de banda escolar

Antônio Filho relembra o início na música, a formação profissional e os caminhos que o levaram à coordenação do conjunto

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Jornalista - Redação

redacao@serraempauta.com.br

Ana Seerig/Divulgação
Antônio Filho, maestro da Banda Marcial do Instituto Estadual de Educação Cristóvão de Mendoza, aparece sentado no auditório da escola, usando camiseta rosa com estampa da banda, óculos e colar. Ao fundo, há cadeiras organizadas em fileiras.

A história do maestro da Banda Marcial do Instituto Estadual de Educação Cristóvão de Mendoza, Antônio Filho, se confunde com a trajetória do próprio grupo. Integrante desde 2002, ele encontrou na música uma profissão, assumiu diferentes funções e ajudou a construir uma nova identidade para a banda, sem deixar de lado a tradição.

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Após passar um ano sem espaço na escola devido às reformas, período em que os ensaios ocorreram em um local cedido pela Fundação Marcopolo, o grupo retornou ao Cristóvão de Mendoza para participar da inauguração da primeira etapa da revitalização, em fevereiro de 2026.

Na entrevista, Antônio fala sobre sua trajetória marcada pelo voluntariado, pela dedicação e pelo sentimento de pertencimento. Ele também comenta sobre sua formação musical, os desafios para manter viva uma das bandas escolares mais tradicionais de Caxias do Sul e os planos para aproximar as novas gerações desse legado.

Como começou o teu contato com a música?

Começou em casa, porque meu pai era gaiteiro, então a ideia era que eu seguisse o mesmo caminho. A minha creche, por assim dizer, foi o Instituto Johann Sebastian Bach, por indicação do Paulo Siqueira. Na época eu fazia aula de órgão, ali eu toquei dos meus 6 anos até os 10. Depois disso eu fiquei em casa tocando piano, tentando tirar música de ouvido. Quando eu me mudei para perto da Escola Olga Maria Kayser, eu escutei um barulho diferente no fim de tarde, fui lá olhar e até hoje estou no meio desse barulho. Eu falo brincando, porque era o barulho da banda ensaiando, então eu pedi se podia participar do grupo, isso era 2001, foi ali que eu tive o primeiro contato com banda marcial. O cabo Daniel Pedro foi meu primeiro instrutor de banda e até hoje a gente tem contato, a gente conversa.

Como foi a escolha do instrumento?

Como a banda do Olga era grande no número de instrumentos de percussão, me ofereceram um instrumento de sopro, o cornetão, que é um instrumento liso, que não faz todas as notas, ele faz só as séries harmônicas. O professor nos motivava dizendo que depois de dominar o cornetão a gente receberia um instrumento que fazia todas as notas, então depois eu recebi o trombone de pisto. Quando a banda do Olga deu uma parada e o professor me convidou para fazer parte de uma banda em Flores da Cunha, lá tinha bombardino, que era o instrumento que ele queria que eu tocasse, só que eu nunca me adaptei com ele marchando. Foi com o maestro Pedro Paulo Mandelli aqui no Cristóvão que comecei a tocar tuba, entre 2003 e 2004.

Em que momento tu veio para o Cristóvão?

Em setembro, outubro de 2002, eu participei de um festival de bandas em Flores da Cunha e vi alguns integrantes da banda do Cristóvão. Eles me apresentaram o coordenador da época, que era o Valdecir Moisés de Oliveira, e ele me convidou para participar ou da banda do Santa ou da banda do Cristóvão. Talvez por ter essa identidade com o Cristóvão, por meu pai ter participado da banda na década de 70 e toda a família dele ter estudado aqui, eu vim para cá em novembro de 2002, na época era bem concorrida a participação da banda, que tinha sido retomada em 1998. Minha primeira apresentação foi aqui no auditório, no Dia das Mães, na época eu ainda não tinha uniforme e eu toquei com um abrigo da banda. Depois me apresentei com o grupo em Bento Gonçalves e no festival de bandas em São Lourenço do Sul. Em 2009, eu comecei a dar aula aqui na banda e assumi a coordenação. Nessa época, por causa da idade, o Mandelli deixa a regência da banda.

Tua atividade com a banda do Cristóvão é voluntária, mesmo assim tu consegue viver exclusivamente do teu trabalho com a música. Como isso aconteceu?

Um dia veio visitar a banda o maestro Ion Bressan, e me convidou para participar de um projeto que a irmã dele coordenava, a orquestra do colégio La Salle, porque eles precisavam de um professor de instrumentos de sopro. A partir de 2010 que eu deixei de trabalhar como técnico de informática e comecei a trabalhar somente com música. Em 2012, eu consegui participar do Festival Internacional de Música de Pelotas, onde fiz contato com professores de fora do Brasil que até hoje me ajudam com material de música, arranjo... Em 2013, passei no conservatório de música da OSPA, onde eu fiquei uns quatro ou cinco anos estudando especificamente tuba e ali também cresceu a rede de contatos. A orquestra do colégio La Salle virou o Projeto Mais Música e eu fiquei lá até 2022. Em 2023, surgiu o convite para eu dar aula dentro da Fundação Marcopolo na Escola de Criatividade.

E em que momento tu deixa a posição de instrumentista para virar regente?

Como eu cheguei a regente? Como eu cheguei a coordenador? Como eu cheguei a professor de teoria e de música aqui dentro do Cristóvão? Acúmulo de funções. Não tem ninguém para fazer, quem pode fazer? Eu fui aprendendo na marra. Foi em 2014 que o antigo regente saiu e o local ficou vago. A gente se adaptou. Eu tinha essa experiência de transcrição e adaptação da época do Mandelli, mas foi tudo na base da tentativa e erro.

Sob a tua regência, a banda participou de eventos como a Aldeia Sesc e apresentou concertos temáticos, como trilhas sonoras de filmes. Como iniciou esse movimento?

2015 foi o último campeonato que a banda participou e fomos campeões estaduais. A decisão de parar de tocar em campeonatos e fazer eventos aqui na cidade foi para voltarmos a ser conhecidos, porque senão o pessoal só nos via no 7 de setembro. A gente respeita muito o passado, mas quisemos colocar a nossa identidade. Além disso, antigamente a banda tinha em torno de 50 pessoas, mas hoje em dia gira em torno de 25, 30, talvez de tanto pesquisar e escutar os professores de fora, apareceu a formação de brassband estilo britânico, onde o grupo de metais funciona como se fosse uma orquestra. Em 2017 teve um concerto só com música de flashback e foi através do cartaz de divulgação que colocamos no Sesc que a coordenadora da cultura me chamou e perguntou se podíamos fazer um repertório brasileiro, então fizemos um concerto em homenagem ao centenário do Chacrinha. Assim foram surgindo os eventos e gerando mais contatos.

Nesses últimos anos, muitas bandas escolares fecharam, tanto do ensino público quanto privado. Como a banda do Cristóvão se mantém?

Tem dois pontos. O primeiro é que todo mundo aqui é voluntário. Todo mundo faz o que pode, seja cuidar dos uniformes, seja ajudar com as partituras... Todo trabalho, todo tempo dedicado é feito por acreditar na banda. Outra coisa é o fato de a escola não impor limite de participação, a banda é aberta à comunidade, não apenas a alunos da escola. Eu entrei aqui como aluno e não saí mais, já faz 24 anos, alguns não tem isso de vida e eu tô aqui dentro todos os sábados ensaiando. O grupo que coordena a banda hoje está junto desde o início dos anos 2000 e boa parte dele trabalha com música: tem gente que toca na Orquestra de Sopros, tem gente que participa da Orquestra da UCS... Eu também quero retomar a escola de música da banda do Cristóvão que está desativada já faz uns três, quatro anos, e ela é necessária para suprir o número de integrantes. Como a maioria tem outros compromissos profissionais, nem sempre conseguem estar presentes em todos os ensaios e eventos. Além disso, é interessante voltar a ter uma identidade com a nova geração dos alunos do Cristóvão. Nós temos os instrumentos, mas agora nós também concorremos com o mundo digital. Participar da banda não é só aprender um instrumento, é se envolver, é ter um senso de pertencimento, de comunidade, e a identidade que Caxias do Sul tem com a banda do Cristóvão é muito forte. Cada pessoa que participou, seja da coordenação da banda, seja da direção da escola, teve uma parte importante dentro dessa história, é responsável por onde a banda está hoje, não posso dizer que eu fiz tudo. A única troca de bastão direta que eu vejo foi com o próprio maestro Mandelli que, antes de ir embora de Caxias, nos chamou na casa dele e disse: “Tentem levar até onde vocês conseguirem”, isso me motiva, me emociona, porque é o compromisso, a paixão e o tempo que a gente já se dedicou a esse grupo.

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